quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Grito

Esgueirou-se para mais perto do precipício. Daquela altura conseguia enxergar as montanhas o vale e os córregos finos fluindo como as veias de seu pulso. Ainda sentia as dores das correntes ao redor, latejando profundamente no espaço em que deixara a marca vermelha.

Doera quebrá-las assim depois de enraizar o hábito de servir, obedecer cegamente sem motivos racionais. Racionalidade era justamente o argumento que eles mais utilizavam naquelas épocas dolorosas, afinal era mais racional ter alguém comandando. Era mais racional ter a base da pirâmide servindo. Era mais racional uma minoria pensante no poder.

Esses haviam sido os argumentos de sua vida inteira, baseados em uma suposta racionalidade, porém ele não achava que algo na vida fosse de fato racional. Os instintos gritavam por liberdade, e a liberdade abria asas e fugia.

Olhou para seus pés esfolados, imundos, doentes, em contraposição ao que esperava lá embaixo. Muitos metros de altura, não saberia contá-los. Nunca aprendera a lidar bem com os números. A racionalidade dizia que eles sabiam de tudo, mas 70% da população passando fome não significa nada. Era preciso ver a fome. Era preciso olhar na cara daqueles que se amontoavam nas ruas debaixo da chuva, esperando por uma resposta, uma migalha sequer de afeto, esperando uma salvação. Era preciso olhar bem nos olhos da criança faminta que batia nas vidraças fechadas dos carros parados perante ao semáforo. Era preciso sentir, mas a racionalidade não ensinava nada sobre sentimentos.

Inspirou profundamente o ar rarefeito, porém límpido, e sentiu-se vivo novamente. Vida. Liberdade. Nunca duas palavras pareceram sinônimas. O que será que há no espaço de ambas em um dicionário comum? Ele já não sentia fome, nem frio, muito menos sono. Ele inspirava, desejava, ele aspirava à liberdade, como o próprio oxigênio.E, no entanto, como um desses paradoxos comuns na vida, era preciso dar um salto para atingir aquilo que ele sempre quis.

Sugou o ar mais uma vez como quem se agarra a um bote no meio do oceano. Como alguém que se despede de um jeito triste, mas simultaneamente contente, daquilo que nunca foi seu. Esticou o pé, fechou os olhos, e pulou com a cena difundindo-se em tinta como quadros impressionistas, nada mais que um borrão, uma pincelada de luz. E gritou. Como nunca havia gritado antes. Um grito de liberdade.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

E se...

Ela percorria a estante de livros como quem faz uma jornada. Ação, Aventura, Romance, Poesia. A cada rótulo, uma dezena de títulos que ela gostaria de ler. Mas a vida não era longa o suficiente. Ia passando por capas ilustradas, vermelhas, azuis, verdes, violetas. Até que seu olhar imobilizou-se em uma coletânea. Na fresta que havia entre um livro e outro, seus olhos encontraram um semblante semelhante. Mas não podia ser. Ela pensou. Havia anos que não o via, e provavelmente essas centenas de dias deviam ter transformado seu rosto da juventude em algo que não fosse tão discernível. Pelo menos não daquela distância. Aquela era sua livraria favorita, porém ainda, sim, ia ser muita coincidência. Naquele momento, ela esqueceu de todos os livros que queria ler. Afinal, descobrira que a única história que lhe interessava era ela a própria autora, embora não pudesse mudar os fatos. Fato. Pensou o que teria acontecido se tivesse dado uma resposta diferente. Fato. Fato foi o que ele respondera. Fato foi o que acontecera naquela noite de Outubro. O céu devia estar meio nublado. Ele parara o carro do lado da porta da sua casa. Eles foram amigos durante quase todos os anos de faculdade. No entanto, apenas naquele momento em que um feixe de luz razoavelmente largo para iluminar um pedaço do rosto dele, ela percebeu que não podia mais fingir que eram amigos. Ele estava com casamento marcado, e ela já havia comprado suas passagens para França, onde iria fazer uma Pós-Graduação. E, entretanto, depois de muitos anos, ela mal conseguia dormir pensando E se? E se ele não fosse casar? E se ela ficasse no país? Ela sabia que não estava fazendo a pergunta correta. O casamento, a viagem, a distância... nenhuma desses três fatores importavam realmente. A única resposta que era  relevante era a constatação de que o fato era de fato mutável "Você está casando, e eu devo viajar em duas semanas", ela dissera. Fato, ele respondera. Ela devia ter dito que podia desistir de viajar, que ficaria no país, que estaria com ele em todos os momentos, que sentia muito, que sentia algo por ele, que sentia ao menos algo. Todavia, ela não se sentiu no direito de mudar os fatos. E se ela tivesse dado a resposta correta? Ou feito a pergunta exata? Mas o que ela podia fazer se nem sempre os fatos são mesmo concretos? E mesmo assim tudo o que queria dizer e não disse foi que a luz estava perfeita naquela momento. E se ela tivesse dito que o amava? Será que estaria mentindo? Ela não poderia prever que sentiria tanto a sua falta. E que lembraria daquele momento pelos próximos cinco anos como o momento em que ela deveria ter dito alguma coisa. Qualquer coisa, mesmo que começasse com E se der tudo errado? Ela queria ter uma resposta dele, mas esquecera-se de fazer a pergunta. E naqueles curtos minutos de reflexão na livraria o rosto conhecido já desaparecera pela rua. E se eu tivesse ido falar com ele? Talvez tivesse sido melhor, ou foi o destino haviam sido perguntas frequentes. Então, por que depois de cinco anos ela ainda se atormentava com a pergunta que não tinha feito? Pois teria bastado uma pergunta e uma resposta para que os fatos naquele momento tivessem mudado. E se não tivesse bastado?

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Pedaços

A vida passa sem piedade. Passa rápido que antes de conseguir piscar os olhos, as crianças já foram embora, os adultos já vieram, a bebida terminou, as luzes da festa se apagaram. Há quem compare a vida com uma estação de trem: um local de espera, onde transitam diariamente uma quantidade impressionante de pessoas. A estação existe devido aos seus sujeitos: os transeuntes que precisam se mover de um local a outro, às vezes com pressa, às vezes sem ela. 
Alguns trocam palavras, outras números e endereços que serão jogados e esquecidos no bolso, na gaveta do trabalho ou na lixeira mais próxima. Alguns trocam olhares, outros certezas e tem uns ainda que vão para não voltar. Alguns carregam dúvidas, outros apenas um vazio que pesa em suas consciências. Alguns são apenas solitários, outros acreditam nas amizades que nunca tiveram de fato. Alguns conhecem seu destino, outros vão se aventurar, alguns perderam o trem escolhido.
Mas a característica mais marcante de uma estação de trem é que ela passageira. Ela só irá fazer parte da vida daqueles que a atravessam por apenas alguns momentos, minutos ou horas, sempre de espera. E são poucos os que gostam de esperar.
E a cada chegada e partida, um abraço, um olhar triste, um aceno de mão. Como se a cada momento as partes se transformassem em partes menores. E as partes menores se movem de lugar, mudam-se de um lado a outro, como milhões de fluxos, de passagens, palavras e novidades que vão se multiplicando até  que se perde o controle e não se sabe mais de quem era aquele choro, ou aquele abraço, ou aquela música favorita. Partes que são perdidas, encontradas e reencontradas por aqueles que esperam na estação. 
E a estação se torna uma mistura de cores, sabores, rostos conhecidos, estranhos, familiares que vão desbotando em uma só canção. Uma canção triste, de adeus. E as partes que se foram jamais serão recuperadas. Pois dentro da estação, há muitos que esperam somente pelo último trem.

sábado, 31 de dezembro de 2011

O último de 2011

Geralmente, eu inicio a última postagem do ano definindo o que foi o ano em uma única palavra. No entanto, dessa vez não será possível. O ano de 2011 foi marcado por extremos: saúde e doença, raiva e amor, desencontro e reencontro, quebra e construção de laços... e não há meio termo capaz de expressar essa montanha russa que é a vida. Portanto, deixo apenas meus votos sinceros que depois dessas idas e vindas, subidas e vencidas, ainda tenhamos energia para seguir em frente.

E é claro, os livros lidos esse ano. Foram poucos, porque a faculdade me sugou mais do que nunca:

1- "Jane Eyre" - Charlotte Bronte
2- "A Desobediência Civil" - Thoureau
3- "L'étranger" - Albert Camus
4- "Sense and Sensibility" Jane Austen
5- "O Resgate no Mar (pt. 1)" - Diana Gabaldon
6- "O Resgate no Mar (pt. 2)" - Diana Gabaldon
7- "O Perigrino da Alvorada" (As Crônicas de Nárnia) - CS Lewis
8- "A Cadeira de Prata" (As Crônicas de Nárnia) - CS Lewis
9- "A Última Batalha" (As Crônicas de Nárnia) - CS Lewis
10 - "The Count of Monte Cristo" - Alexandre Dumas

Feliz Ano Novo! 

sábado, 15 de outubro de 2011

Um, dois, três. Volte e cante.

Um. A única coisa que ela lembrava daquela época eram os dias nublados de Outubro. As nuvens carregadas movendo no céu cinzento, as sombras nos prédios, o verde da grama recém-cortada. E mesmo assim, um ano inteiro não se comparava à sensação de felicidade daqueles meses... A brisa gelada no rosto não era nada comparada ao calor que sentia por dentro. Um coração envolto em lençóis de uma esperança sem tamanhos. E tudo que conseguia lembrar era o barulho das gotas de Outubro, que, mal sabia, iriam se manchar com o vermelho de uma ausência infinita. Aprendera, com o barulho da chuva, a formar uma melodia.

Dois. Sorvete e uma música que não conseguia sair da sua cabeça. Os tons, ela já tinha decorado. Afogava-se cada vez mais, afundando na melodia, na clave de sol, no meio-tom. Malditos sustenidos. Sabia da necessidade de aprender outra canção, mas ainda não conseguia deixar aquela ir embora. Dó. Dó. Dó. Repetidas vezes no piano. E nenhuma delas fora tocada q

Três. Ausência, memórias, decepção. Vazio. A época da chuva passara e as águas levaram toda aquela alegria, que escoou pelos bueiros das estradas, foi absorvida pelo solo ou simplesmente evaporou, dissolvendo-se em moléculas ou pequenas partículas imperceptíveis, como um disco guardado na gaveta e parcialmente esquecido. Aquele disco que o dia-a-dia faz esquecer, mas que você nunca vai deixar de gostar de cada música, cada letra e fotografia estampada. Como algo que se foi, mas ainda existe.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Reencontros

Li em um livro, certa vez, que quando ficamos muitos anos sem ver determinada pessoa e voltamos a encontrá-la temos um momento incicial de choque em que pensamos que ela mudou em tudo. O mesmo livro afirmava que após esse primeiro momento, tal pessoa voltava ao normal e então percebíamos que na verdade ela não mudara substancialmente. Não sei se concordo totalmente com essa afirmativa tão categórica. Pessoas são diferentes e é, exatamente por isso, que elas encaram a mudança de formas distintas. Entretanto, em um aspecto talvez o livro tenha razão: existe uma essência que permanece. Algo como um resquício de perfume, uma mancha de batom, uma cicatriz que nunca abandona o corpo. Em um segundo, a pessoa está lá, como uma extensão do seu próprio ser, um anexo a suas curvas e no minuto seguinte... assim, como se fosse de repente... ela desaparece. E então, aquela ligação, mais forte que Pontes de Hidrogênio, se dissolve na leveza insustentável do ar! Mas é justamente quando todas as esperanças estão perdidas, quando não se fala mais no passado, quando as fotografias se perderam e as flores dadas murcharam... é nesse momento, que a pessoa decide voltar. E aquele choque inicial cai como uma pancada na cabeça: ele mudou, você mudou, e agora vocês dois compartilham experiências que nunca tiveram juntos. Um passado não comum, lembranças particulares, um conjunto não vivido e uma música nunca tocada. Uma lacuna em uma história, um buraco no meio do papel... Mas a tinta ainda está lá... e você sente como se pudesse apreciar o cheiro fresco... Todavia, ela está manchada. O papel está manchado com o vazio que foram aqueles anos. Ainda existe uma essência... mas ela está obscurecida por todos os momentos que vocês não passaram juntos.

Esse ano reencontrei dois amigos da época do Colégio. Amigos que eu não via há cerca de 3-4 anos. Esses anos pareciam pouco para mim. Eu sempre achei que levava mais anos para alguém mudar tanto. Mas não sei dizer, e isso me fez pensar: será que alguma coisa nesse mundo dura para sempre? Existem tantas pessoas que eu gostaria de reencontrar, mas só de pensar me dá um frio na barriga.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Play

(Comes Lady Groundlander with her nurse. Hendell is hidden behind the bush)
Lady G.: Oh, Oh, dark, darkest night I've ever had! How sad is the moon in this lonely night! 
Nurse: Be patient, child! Everything has a time. It was not your fault, but the destiny. God will guide us. Be calm! Wait for me here, I will see if your beloved parents are not ill!
(The nurse left. Hendell appears.)
Lady G.: Oh, Hendell, my dear friend. Is that you, the shadow that comes so slowly?
Hendell: Yes, my lady, it is your humble serve who comes to relieve you.
Lady G.: What a sad day, Hendell! Did you know about the notices?
Hendell: Yes, beautiful lady. I knew by the afternoon. 
Lady G.: So you know that my heart is crying... My dearest one is gone and it was so cruel... He must have been suffering too much. I can't bear this. I cannot even imagine. 
Hendell: Calm down, my lady! Everything in this world is vain! Each person is trying to survive. taking the pieces of afection, carrying their faults with their shoulders... Death is nothing but freedom.
(pause)
Lady G.: But, wise Hendell, it is still a great suffering for those who are living... All the faults are ours, now. All the faults are ours...