quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Dylan e a busca pelo eterno


Dylan apagou o resto do seu cigarro na madeira do deck. O relógio ainda não marcara meia-noite e a lua enorme pairava no céu como um grande balão perfeitamente redondo. Ele observava o lago escuro iluminado unicamente pela luz da grande esfera no céu, além da fragilidade dos postes. Era noite de ano novo e ele estava, mais uma vez, sozinho.

O final do ano e particularmente aquela data sempre o fazia lembrar as poucas amizades que tivera na vida. Tinha muitos colegas, parceiros de festas talvez, mas de todos havia realmente poucos que considerava amigos. Pensava constantemente no significado da palavra “amizade”. Para ele, deveria se algo que durasse para sempre, mas cada vez habituava-se a se acostumar com a partida das pessoas.

Todos acabavam partindo, afinal. Questionava-se se era um problema dele. Será que Dylan era chato demais? Quadrado demais? Um pouco antiquado, talvez? Será que não tinha inteligência suficiente, carisma ou personalidade? O que estava ausente nele? Começava, então, a listar, um a um, os que se foram.

Bob, seu melhor amigo no colégio. Eles faziam tudo juntos: iam à escola juntos, estudavam para as provas, foram da mesma sala várias vezes. Mas os anos passaram, Bob fez novos amigos na faculdade e sumiu.

Milly, sua colega de sala na universidade. Os dois sempre iam ao cinema, conversavam sobre quase tudo e tinham os mesmos objetivos na vida. Até que um dia ela arranjou um namorado e sumiu.

Pedro, amigo que conheceu em uma festa. Foi seu amigo até decidir que nunca mais iria encostar a boca em um copo de cerveja. E então, sumiu.

Esses eram apenas exemplos dos muitos casos de amizade passageira, que ia e vinha, mas nunca ficava ou permanecia de fato. Ele queria alguém que não fosse seu amigo apenas na hora da carona ou de empréstimo de dinheiro. Costumava-se dizer que havia diversos tipos de amizades, no entanto, Dylan sempre acreditou que a característica elementar era a constância, o fato de sempre estar lá ou de ao menos estar disponível. Ou o “querer bem” que nunca acabava. “Nunca acabava”, eternidade.

Talvez essa fosse apenas mais uma disputa que Dylan tinha consigo mesmo. A busca pelo eterno, por algo que não terminasse, por alguém que não fosse embora. Alguém que não fosse. E assim ele esperava mais um ano terminar. Sentado no deck observando as águas escuras do lago. Águas que iam e vinham devagar, mas estavam sempre ali, quando ele precisava delas.

domingo, 13 de janeiro de 2013

O que Catherine poderia ter dito a Heathcliff

_ E então, Heathcliff? Eu caso com o Linton e você com sua Isabela? É assim que acaba?

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

O Último de 2012.

Se eu fosse descrever 2012 em uma única palavra, essa seria "transição". Um processo de transição que se inicia em 2012 e deve continuar até 2013, ou até depois, quando eu finalmente atingir certo grau de estabilidade. Se um momento de transição começou esse ano, também é possível afirmar que 2012 encerrou um breve ciclo que começara em 2009: a graduação em Ciência Política e os diversos traumas amorosos. 2012 foi um ano de muito esforço, mas também de grandes realizações: formatura, primeiro emprego, e aprovação no processo seletivo do mestrado. Foi um ano de desgaste mental, noites mal dormidas, pequenos problemas de saúde, porém também houve muitos aplausos, sorrisos, abraços. Foi um período de plantar e colher, às vezes simultaneamente, o que exigiu um trabalho paranormal... mas valeu a pena, eu acho. Foi um ano de surpresas... situações inusitadas e acontecimentos inesperados, os quais eu nunca poderia imaginar e que me impressionaram positivamente. Sempre achei (e acredito que continuarei) impressionante como alguém despercebido e indiferente poderia se tornar alguém tão relevante a ponto de ser inimaginável uma vida sem ele. Por fim, foi um ano de escolhas: tive que adiar minha vontade antiga de pós-graduação no exterior em prol de melhores condições financeiras.

Livros lidos:

1- "O Castelo de Vidro" - Jeanette Wals
2 - "Assassin's Creed - Renascença" - Oliver B.
3 - "La Dame Aux Camélias" - Alexandre Dumas (filho)
4 - "A Guerra dos Tronos" (As Crônicas do Gelo e do Fogo, vol I) - George R.R. Martin
5 - "The Clash of Kings"  (As Crônicas do Gelo e do Fogo, vol II) - George R.R. Martin
6 - "O Tigre de Sharpe" (As Aventuras de Sharpe, vol I) - Bernard Cornwell
7 - "Steppenwolf" - Hermann Hesse
8 - "Wuthering Heights" - Émile Brönte
9 - "A Senhora da Magia" (As Brumas de Avalon, vol I) - Marion Zimmer Bradley

Foram poucos livros, eu sei, mas eu não me culpo, visto que cada livro da série A Song of Ice and Fire (que deu origem à maravilhosa série do HBO Game of Thrones) tem de 500 a 900 páginas... E o terceiro já está nas minhas mãos!

De todos os nove, o que eu mais gostei foi o Steppenwolf, muito pelas circunstâncias que me levaram a lê-lo. Também gostei bastante da série A Song of Ice and Fire, e do livro La Dame Aux Camélias, embora seu autor não supere o próprio pai, o qual escreveu Le Comte de Monte-Cristo, um dos romances mais brilhantes que tive a oportunidade de ler. E foi bom voltar a ler Bernard Cornwell!

Feliz ano novo!

Meta para 2013: beber mais água!

sábado, 22 de dezembro de 2012

A felicidade da qual fora excluído

Uma das minhas cenas favoritas no filme "Peter Pan" (boa adaptação da belíssima peça de J.M. Barrie) acontece ao final do filme: Peter observa, da janela, uma Wendy contente com seus irmãos e os meninos perdidos, agora adotados pela família da menina. E a narradora afirma que ele observava a única felicidade da qual não poderia jamais participar, ois fora permanentemente excluído.

A exclusão nesse caso, porém, tratava-se de uma escolha: Se Peter realmente quisesse passar a sua vida inteira com a supostamente amada Wendy, bastava abdicar da Terra do Nunca e de sua infância eterna. Ela fizera essa oferta, mas ele recusou, pois era o menino que não podia crescer. O verbo mais correto, entretanto, não era "podia" e sim "queria". Ele não queria crescer, porque ele no fundo ele tinha medo das consequências trazidas pelo "crescer".

É claro que o filme muda diversos pontos da peça de Barrie, mas o fundamental está bem ali visível aos olhos de quem assisti: o medo de crescer, de mudar de fase, de seguir adiante. Peter Pan é mais que um personagem infantil, ele é a encarnação dos medos de muitas crianças e adultos: a repulsa de assumir as responsabilidades associadas à vida adulta. No entanto, devido a essa aversão, ele também perdia não apenas a responsabilidade, mas também os diversos elementos positivos trazidos pelo crescimento, entre eles a companhia de Wendy e a vida que os dois poderiam ter juntos.

A vida é feita de escolhas e das consequências que essas escolhas no trazem. Todas as escolhas são difíceis, porque as consequências são imprevisíveis. Como saber se Peter realmente tivesse abdicado de sua infância eterna Wendy teria ficado com ele pelo resto de suas vidas? E se ela casasse com outro e Peter se arrependesse amargamente de ter crescido? Poderia acontecer, assim como eles poderiam ter sido felizes para sempre.

Os anúncios, as propagandas, as morais contidas nos filmes, e todo um universo de elementos incentivam a busca pela felicidade. Entretanto, é difícil buscar algo que não se sabe o que é. Seria ela a Terra do Nunca? Ou seria um dia feliz com a Wendy, mesmo que apenas um dia? São perguntas sem resposta. E é essa ausência de certeza absoluta que nos exclui de uma série de possibilidades... e de felicidades.


Uma observação importante: A peça original  do Sr. Barrie (na verdade um conjunto de peças, das quais a mais famosa chamava-se "Peter and Wendy") não era destinada ao público infantil, mas sim um texto para adultos!

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Dividida.

Quem inventou aquela história da metade da laranja devia ter sido um miserável em busca de uma razão de viver. O fato é que ninguém nasce incompleto, como se partes indispensáveis estivessem faltando ou como se pudesse estar sobrando. Ninguém nasce sem outra suposta metade, ou sem uma parte por menor que seja, porém constantemente há pessoas que se sentem incompletas, como se algo estivesse faltando. Mas não há como sentir falta de algo que nunca se teve, ou há?

Como se existisse um espaço vazio, esperando ser preenchido com algo que deveria estar sempre lá, mas por alguma razão está. Como um quarto mobiliado trancado esperando por um detentor das chaves. Ou um amante esperando a volta da amada, que estava viajando. Ou semelhante a uma criança sonhando com o presente de natal que não veio.

Entretanto, cada um é constituído por múltiplas partes, as quais constantemente estão em conflito. Ninguém é apenas "sério", ou somente "extrovertido". Não conheço uma única pessoa a qual eu possa descrever em uma palavra, uma característica, uma qualidade ou defeito, que seja!

A verdade é que cada pessoa contem milhares de outras, uma para cada ocasião, cada interação ou situação.

Dessa forma, existem múltiplas partes, assim como possivelmente existem muitas metades.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Aquilo que deveria ser dito.

Dizem que há aquilo que não volta... a pedra lançada e a palavra dita são dois exemplos comumente enunciados. No entanto, há aqueles que se esqueçam de outro exemplo de muita relevância: a oportunidade perdida.

A oportunidade perdida é como um fantasma de alguém querido: está sempre às sombras dos eventos mais inusitados, surgindo à memória a cada momento, como uma assombração que não desiste de lembrar que ela passou. Há uma mistura de carinho, de apego, e simultaneamente de medo. Medo de admitir que ela se perdeu ou medo de considerar que ainda há uma chance e que é necessário ir buscá-la.

E da mesma forma que a palavra dita, em grande parte dos casos a palavra não dita também não volta. Mas ela consegue ser ainda pior: ela se desmancha em letras espalhadas na superfície do córtex da alma, como algo engasgado, que não consegue ir, mas não consegue ficar. Ela consegue ser ainda pior do que a palavra dita, porque a todo instante ela faz questão de lembrar que poderia ter sido diferente.

A palavra não dita incomoda tanto quanto a oportunidade perdida. E, algumas vezes, como se elas gostassem de companhia, andam juntas, de mãos dadas. Importunando e afirmando, em alto bom som, que apenas não poderia, quanto deveria ser diferente.

Deveria ser.
E aí você pode lembrar que ainda está vivo, que ainda pode dizer o que não disse, e que a oportunidade ainda está lá, mesmo que longe.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Grito

Esgueirou-se para mais perto do precipício. Daquela altura conseguia enxergar as montanhas o vale e os córregos finos fluindo como as veias de seu pulso. Ainda sentia as dores das correntes ao redor, latejando profundamente no espaço em que deixara a marca vermelha.

Doera quebrá-las assim depois de enraizar o hábito de servir, obedecer cegamente sem motivos racionais. Racionalidade era justamente o argumento que eles mais utilizavam naquelas épocas dolorosas, afinal era mais racional ter alguém comandando. Era mais racional ter a base da pirâmide servindo. Era mais racional uma minoria pensante no poder.

Esses haviam sido os argumentos de sua vida inteira, baseados em uma suposta racionalidade, porém ele não achava que algo na vida fosse de fato racional. Os instintos gritavam por liberdade, e a liberdade abria asas e fugia.

Olhou para seus pés esfolados, imundos, doentes, em contraposição ao que esperava lá embaixo. Muitos metros de altura, não saberia contá-los. Nunca aprendera a lidar bem com os números. A racionalidade dizia que eles sabiam de tudo, mas 70% da população passando fome não significa nada. Era preciso ver a fome. Era preciso olhar na cara daqueles que se amontoavam nas ruas debaixo da chuva, esperando por uma resposta, uma migalha sequer de afeto, esperando uma salvação. Era preciso olhar bem nos olhos da criança faminta que batia nas vidraças fechadas dos carros parados perante ao semáforo. Era preciso sentir, mas a racionalidade não ensinava nada sobre sentimentos.

Inspirou profundamente o ar rarefeito, porém límpido, e sentiu-se vivo novamente. Vida. Liberdade. Nunca duas palavras pareceram sinônimas. O que será que há no espaço de ambas em um dicionário comum? Ele já não sentia fome, nem frio, muito menos sono. Ele inspirava, desejava, ele aspirava à liberdade, como o próprio oxigênio.E, no entanto, como um desses paradoxos comuns na vida, era preciso dar um salto para atingir aquilo que ele sempre quis.

Sugou o ar mais uma vez como quem se agarra a um bote no meio do oceano. Como alguém que se despede de um jeito triste, mas simultaneamente contente, daquilo que nunca foi seu. Esticou o pé, fechou os olhos, e pulou com a cena difundindo-se em tinta como quadros impressionistas, nada mais que um borrão, uma pincelada de luz. E gritou. Como nunca havia gritado antes. Um grito de liberdade.