terça-feira, 7 de setembro de 2021

Quando Dylan encontrou o eterno

Admirava as águas do lago, calmas, iluminadas pela luz do dia. Há pouco mais de dois anos, estava naquele mesmo local, refletindo sobre o tema que lhe roubava o sono e condenava sua existência: a impermanência. Como qualquer outra pessoa, Dylan não conseguia lidar com a fluidez da modernidade líquida, com os romances passageiros, as relações que não duram, as pessoas que não ficam, a euforia que acaba. Mas talvez aquilo lhe incomodasse ainda mais em comparação a outras pessoas que parecem tão acostumadas, porque lhe dava insônia, crises de ansiedade, uma sensação de desespero e estagnação. Estava naquele mesmo local onde comemorara o nascer de um ano novo anos antes, justamente a época em que ficava mais deprimido porque se lembrava de todos aqueles que haviam partido. Dylan e a eterna busca pelo eterno. No final, sabia que a dor por todas as partidas de sua vida se resumia a uma só, que tinha um nome específico: Estela. Podia fingir que não pensava nela, chateando-se com outros, fingindo que a causa do seu sofrimento era a pressão do chefe no trabalho, os problemas de sua família ou até mesmo a saúde de sua avó. Mas, sabia que por trás, ainda que todo o resto fosse igualmente relevante, estava ela. Serena, calma, porém longe.

Estela foi seu primeiro e grande amor. Ele a viu pela primeira vez ainda jovem em um recital de poesia organizado pela escola. Na ocasião, ela lia um poema de sua própria autoria, aos 15 anos de idade – ela amava escrever desde sempre, dizia que era como respirar. Foi amor à primeira vista, o único que ele teve assim, em todos os seus longos 35 anos, de forma fulminante. Estela foi como o nome indica: estelar, uma estrela candente que passou em sua vida, devastadora como um cometa. Agora ela tinha retornado ao seu lar, brilhava no céu como a memória de um sorriso. Quando ele a viu pela primeira vez, no palco, não foram os olhos encantadores ou a qualidade de sua poesia que o deixaram encantado. Foi justamente o sorriso tímido, mas especialmente triste, que o deixara completamente intrigado. Desde então, fazia tudo para cruzar com ela no recreio, mas ela vivia em seu próprio mundo... nas estrelas. Como ele era um ano mais velho, tinham poucas chances de se encontrar. No entanto, como uma dessas peças que a vida gosta de pregar, em um belo dia depois de seis meses do primeiro encanto, ele estava conversando com um amigo e ela apareceu, do nada, das sombras. Acontece que ela precisava devolver uma fita de videogame para esse amigo de Dylan, o Bob, que Estela conhecia porque moravam no mesmo bairro e seus pais eram amigos há muitos anos.

E, assim como mágica, por uma fita de videogame, ele disse as primeiras palavras a ela. Foi uma piada ou algo semelhante. Ficou caçoando da menina ao dizer que Bob e ela eram namorados quando, na verdade, ele queria ocupar aquele papel desde que a viu pela primeira vez. Desde aquele dia, passaram a se encontrar com mais frequência, trocar palavras, depois poesias, conversar sobre assuntos muito sérios até que chegou o momento, em um dia chuvoso, em que ele se atreveu a dar o beijo que tanto queria. Dylan nunca soube descrever o amor com palavras. Mas sabia, que se isso existisse, era aquilo. Eram as mãos dadas no intervalo, os debates sobre o sentido da vida, os arrepios quando se esbarravam por acaso, o abraço que fazia o tempo parar e a sensação estranha no estômago, a qual ele nunca sabia se era fome, refluxo ou a mais pura manifestação daquele amor nervoso. Estela sabia quando ele estava triste sem que ele precisasse dizer. Decifrava suas emoções pelo olhar e parecia que se comunicava com ele por telepatia. Ela conseguia identificar seu humor até por mensagem de celular. Ele sonhava com ela, principalmente quando sentia que ela estava triste. E ela ficava assim com frequência.

Estela foi diagnosticada com depressão por três ou quatro psiquiatras. Perdera os pais muito jovem, em um acidente de carro, e nunca conseguira se recuperar. Mas, além das circunstâncias tristes de sua vida, tinha dificuldades biológicas em se sentir feliz. Dylan e Estela foram namorados durante uma pequena fração do ensino médio de ambos. Logo depois daquele dia chuvoso de setembro, ela foi embora da cidade e eles continuaram amigos. Chegaram a reatar em alguns momentos, quando estavam mais velhos, e a brigar às vezes. Dylan sempre telefonava em setembro, não importava a distância que existisse, porque foi o período do ano em que os pais dela morreram e era sempre um mês choroso para ela. Em determinado momento da vida adulta, reataram de uma vez e até moraram juntos por alguns meses. Mas aquela sombra escura por trás de Estela, que ofuscava todo seu brilho de estrela, sugava a energia de Dylan como um buraco negro. Progressivamente, o “bom dia, amor” era substituído por “eu não tenho vontade alguma de viver”. E ele ficava se questionando se o amor que sentia por ela não era razão suficiente para construir aquela vontade. Mas nada era. Estela não veio com um manual de instruções. Ninguém com problemas de saúde mental vem. E Dylan não soube lidar. Muitas vezes era um pouco agressivo, sem querer, como para descontar a frustração de que qualquer sacrifício seu não valia nada. Outras vezes, ele chorava escondido no quarto, porque não queria ser um peso adicional para quem acreditava ser o amor de sua vida. Ele dizia que ela tinha se cuidar, fazer exercício, mas ela ouvia todos os conselhos como se fossem críticas. A situação ficou insustentável quando Estela começou a misturar os remédios que deveriam ser sua cura com a outra terapia que ela gostava mais: o álcool. Chegava em casa bêbada, na madrugada, e não se lembrava de nada no dia seguinte. Dylan ficou impaciente, ameaçou ir embora esperando que ela dissesse que o amava e pedisse que ele ficasse, mas, para sua surpresa, ela respondeu que era mais feliz sem ele. Aquilo foi o ponto final. Tudo que ele queria é que ela fosse feliz. E então saiu da casa e recomeçou uma vida nova.

Anos mais tarde, quando se encontraram novamente para tomar um café, ele perguntou se a vida dela estava melhor sem ele. “Melhor, não sei”, ela respondeu, “mas boa não está”. Aquela foi a última frase que disse, pois viria a falecer meses depois, em setembro, por alguma causa desconhecida, que nem o Instituto Médico iria resolver, mas que a maioria dos amigos atribuía a excesso de medicação. Dormiu e acordou no céu, Dylan pensava. Tudo que sobrara dela fora um pequeno caderno com textos e poesias. De vez em quando, Dylan abria e lia. Todavia, as palavras lhe causavam muita dor porque eram exclusivamente a expressão do sofrimento dela. Naquele dia, olhando novamente para as águas do lado, com o caderno embaixo do braço esquerdo, ele não se sentia mais tão triste. Desde o ensino médio, passara os doze anos seguintes da sua vida com Estela. Ainda que os dois estivessem fisicamente separados pelo maior período de suas vidas, nunca deixaram de trocar palavras de conforto por mensagens, e-mails, telefonemas e até partidas de jogos online. E ainda que ele fosse insuficiente – porque, no final, nada era suficiente – para fazer com que ela tivesse algum desejo pela vida, ele sabia que tinham compartilhado momentos verdadeiramente felizes. E ele sabia, dentro de si, que ela fora feliz – ao menos, por alguns segundos, alguma fração de sua vida. O único crime que ele não podia perdoar era ela ter ido antes dele e sem se despedir.

E, anos depois de sua morte, ali parado em frente às águas escuras e hipnotizantes do lago, ele não podia deixar de pensar que sua busca tinha terminado antes mesmo de começar. Na verdade, ele já tinha encontrado o eterno no ensino médio. Ele teve a sorte de encontrar o amor. E, por mais que a reciprocidade lhe fosse uma questão perturbadora, ele não podia deixar de ficar feliz por ter sentido. Sabia que nunca deixaria de sentir. Como uma música que se torna uma viagem no tempo, uma sensação na pele que some, mas nunca desaparece completamente. Sabia que teria outras relações amorosas – mais saudáveis, esperava – que pensaria cada vez menos nela, mas nunca a deixaria por completo. Ela fazia parte dele, ontem, hoje, amanhã e sempre. E então Dylan compreendeu que antes não sabia o que significava “eterno”. Achava que eternidade significava algo que nunca mudaria. Mas, não. Naquela hora, compreendeu que o eterno é o que permanece apesar das mudanças. Mas ele também muda. 

domingo, 5 de setembro de 2021

La petite note qu’il n’a jamais reçue

Le 28 Octobre 2017





L'exil commence à devenir lourd, très lourd. J'ai besoin de tes conseils. Encore. Plus que jamais. Tu as été la seule personne qui pouvais comprendre ce que je pensais. Tu comprenais tous sans qu'il soit nécessaire que je te le dise. Sauf ce je que sentais pour toi, peut-être.

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

O último de 2013.

Geralmente, no último dia do ano, eu faço uma pequena retrospectiva do que se passou. Algumas palavras que descrevem o ano, alguns momentos, lapsos de memória. No entanto, a verdade é que esse final de ano me deixou um pouco sem paciência. O que é estranho, porque 2013 não foi tão ruim. Muitos ganhos, muitas perdas. Nada diferente de qualquer ano. Será que isso trouxe decepção? Será que, no fundo, eu esperava mais? Não sei responder essa pergunta. Sei que o que 2013 trouxe de bom foi o mestrado, a dança, as leituras. E o que trouxe de ruim foram as perdas. Humanas, na maioria delas. Pessoas que foram porque quiseram ou porque não tiveram escolha. Como todos os anos.

Conforme tradição, seguem os livros lidos (na verdade, a lista corresponde apenas ao gênero literário, as leituras no âmbito da Ciência Política foram maiores):

1 - "Comprometida" - Elizabeth Gilbert
2 - "Une mort très douce" - Simone de Beauvoir
3 - "Superfreakonomics" - Steven D. Levitt e Stephan J. Dubner
4 - "Les Trois Mousquetaires" - Alexandre Dumas
5 - "Les Misérables" (I) - Victor Hugo
6 - "Hunger Games" - Suzanne Collins
7 - "Catching Fire" - Suzanne Collins
8 - "Mockingjay" - Suzanne Collins

Feliz ano novo!

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Ils n'ont pas changé

Non, mes sentiments n’ont pas changé.
Je t’aime comme hier.
Demain et au-delà.
Je t’éspere comme toujours.
Toute la vie.
Et, bien sûr, tu me manques beaucoup.
Comme autrefois.

J’ai besoin de toi. 
Encore. Une fois de plus.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Dylan e a busca pelo eterno


Dylan apagou o resto do seu cigarro na madeira do deck. O relógio ainda não marcara meia-noite e a lua enorme pairava no céu como um grande balão perfeitamente redondo. Ele observava o lago escuro iluminado unicamente pela luz da grande esfera no céu, além da fragilidade dos postes. Era noite de ano novo e ele estava, mais uma vez, sozinho.

O final do ano e particularmente aquela data sempre o fazia lembrar as poucas amizades que tivera na vida. Tinha muitos colegas, parceiros de festas talvez, mas de todos havia realmente poucos que considerava amigos. Pensava constantemente no significado da palavra “amizade”. Para ele, deveria se algo que durasse para sempre, mas cada vez habituava-se a se acostumar com a partida das pessoas.

Todos acabavam partindo, afinal. Questionava-se se era um problema dele. Será que Dylan era chato demais? Quadrado demais? Um pouco antiquado, talvez? Será que não tinha inteligência suficiente, carisma ou personalidade? O que estava ausente nele? Começava, então, a listar, um a um, os que se foram.

Bob, seu melhor amigo no colégio. Eles faziam tudo juntos: iam à escola juntos, estudavam para as provas, foram da mesma sala várias vezes. Mas os anos passaram, Bob fez novos amigos na faculdade e sumiu.

Milly, sua colega de sala na universidade. Os dois sempre iam ao cinema, conversavam sobre quase tudo e tinham os mesmos objetivos na vida. Até que um dia ela arranjou um namorado e sumiu.

Pedro, amigo que conheceu em uma festa. Foi seu amigo até decidir que nunca mais iria encostar a boca em um copo de cerveja. E então, sumiu.

Esses eram apenas exemplos dos muitos casos de amizade passageira, que ia e vinha, mas nunca ficava ou permanecia de fato. Ele queria alguém que não fosse seu amigo apenas na hora da carona ou de empréstimo de dinheiro. Costumava-se dizer que havia diversos tipos de amizades, no entanto, Dylan sempre acreditou que a característica elementar era a constância, o fato de sempre estar lá ou de ao menos estar disponível. Ou o “querer bem” que nunca acabava. “Nunca acabava”, eternidade.

Talvez essa fosse apenas mais uma disputa que Dylan tinha consigo mesmo. A busca pelo eterno, por algo que não terminasse, por alguém que não fosse embora. Alguém que não fosse. E assim ele esperava mais um ano terminar. Sentado no deck observando as águas escuras do lago. Águas que iam e vinham devagar, mas estavam sempre ali, quando ele precisava delas.

domingo, 13 de janeiro de 2013

O que Catherine poderia ter dito a Heathcliff

_ E então, Heathcliff? Eu caso com o Linton e você com sua Isabela? É assim que acaba?

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

O Último de 2012.

Se eu fosse descrever 2012 em uma única palavra, essa seria "transição". Um processo de transição que se inicia em 2012 e deve continuar até 2013, ou até depois, quando eu finalmente atingir certo grau de estabilidade. Se um momento de transição começou esse ano, também é possível afirmar que 2012 encerrou um breve ciclo que começara em 2009: a graduação em Ciência Política e os diversos traumas amorosos. 2012 foi um ano de muito esforço, mas também de grandes realizações: formatura, primeiro emprego, e aprovação no processo seletivo do mestrado. Foi um ano de desgaste mental, noites mal dormidas, pequenos problemas de saúde, porém também houve muitos aplausos, sorrisos, abraços. Foi um período de plantar e colher, às vezes simultaneamente, o que exigiu um trabalho paranormal... mas valeu a pena, eu acho. Foi um ano de surpresas... situações inusitadas e acontecimentos inesperados, os quais eu nunca poderia imaginar e que me impressionaram positivamente. Sempre achei (e acredito que continuarei) impressionante como alguém despercebido e indiferente poderia se tornar alguém tão relevante a ponto de ser inimaginável uma vida sem ele. Por fim, foi um ano de escolhas: tive que adiar minha vontade antiga de pós-graduação no exterior em prol de melhores condições financeiras.

Livros lidos:

1- "O Castelo de Vidro" - Jeanette Wals
2 - "Assassin's Creed - Renascença" - Oliver B.
3 - "La Dame Aux Camélias" - Alexandre Dumas (filho)
4 - "A Guerra dos Tronos" (As Crônicas do Gelo e do Fogo, vol I) - George R.R. Martin
5 - "The Clash of Kings"  (As Crônicas do Gelo e do Fogo, vol II) - George R.R. Martin
6 - "O Tigre de Sharpe" (As Aventuras de Sharpe, vol I) - Bernard Cornwell
7 - "Steppenwolf" - Hermann Hesse
8 - "Wuthering Heights" - Émile Brönte
9 - "A Senhora da Magia" (As Brumas de Avalon, vol I) - Marion Zimmer Bradley

Foram poucos livros, eu sei, mas eu não me culpo, visto que cada livro da série A Song of Ice and Fire (que deu origem à maravilhosa série do HBO Game of Thrones) tem de 500 a 900 páginas... E o terceiro já está nas minhas mãos!

De todos os nove, o que eu mais gostei foi o Steppenwolf, muito pelas circunstâncias que me levaram a lê-lo. Também gostei bastante da série A Song of Ice and Fire, e do livro La Dame Aux Camélias, embora seu autor não supere o próprio pai, o qual escreveu Le Comte de Monte-Cristo, um dos romances mais brilhantes que tive a oportunidade de ler. E foi bom voltar a ler Bernard Cornwell!

Feliz ano novo!

Meta para 2013: beber mais água!